Com a redução do espaço para o futebol nas ruas e nos campos de várzea, iniciação se dá cada vez mais em filiais de clubes
Guilherme Costa
Mais do que a preparação física ou técnica, a grande mudança no futebol desde seu surgimento para a realidade atual foi o cenário. Os campos de várzea e a prática do esporte nas ruas, comuns no início do século XX, foram reduzidos drasticamente pelo processo e o crescimento das grandes cidades. No lugar deles, o primeiro contato dos garotos com o esporte passou a acontecer nas escolinhas. Mas será que o modelo pedagógico desses centros é o ideal para a formação dos atletas?
Existe uma intensa discussão sobre o modelo adotado nas escolinhas de futebol. A maioria é comandada por ex-jogadores, que aplicam com os garotos uma metodologia parecida com a que fazia parte de seu dia-a-dia como atleta. Com base no conhecimento empírico, eles usam com as crianças uma abordagem parecida com a que existe em times adultos e criam estruturas miniaturizadas do trabalho realizado com profissionais.
"As escolinhas de futebol têm um papel fundamental para o desenvolvimento dos atletas. Mas eu sou contra algumas metodologias de ensino. Crianças que apenas cumprem ordens têm a liberdade tolhida e uma enorme dificuldade de raciocínio", explica o sociólogo e professor de educação física Sérgio Jorge Burihan.
Com estruturas que limitam o desenvolvimento da criatividade e do raciocínio dos atletas, as escolinhas deixam de lado o perfil lúdico que sempre marcou a formação dos jogadores brasileiros. A maioria dos atletas renomados do país começou a ter contato com o esporte nas ruas e a liberdade que esse ambiente proporciona é uma das explicações para o estilo do país.
"Quando eu era garoto, gostávamos de jogar futebol na praia, mas tinha o problema de a maré encher. Então nós estipulávamos horários para as peladas e maneiras de contornar os problemas da maré. Não foi preciso que nenhum técnico nos passasse isso. Nós tivemos de pensar na solução e isso contribuiu para desenvolvermos bagagem corporal e intelectual", conta Burihan.
Um modelo de escolinha que tem conseguido mais espaço nos últimos anos é o que se liga diretamente aos clubes. Assim, esses centros trabalham de acordo com metodologias desenvolvidas pelas equipes, com sua marca e seus uniformes, e enviam os principais destaques para treinar no time associado.
O problema é que essa mecânica tende a fortalecer ainda mais a estrutura imprópria para o desenvolvimento do primeiro contato com o esporte. Antes mesmo de serem conduzidos a um clube, os garotos já treinam com perspectiva de desenvolvimento de suas habilidades para um lucro futuro da escolinha - as instituições recebem porcentagens em caso de sucesso dos jogadores que formam.
"Em algumas escolinhas de futebol, os treinadores têm um roteiro de treinos e não deixam que nada fuja daquilo. Isso prejudica sensivelmente a questão da liberdade de pensamento. Os garotos não pensam em alternativas para problemas, mas apenas nas soluções que são apresentadas pelos treinadores", conclui Burihan.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
FUTSAL E CATEGORIAS DE BASE: UMA SUPERAÇÃO AO MODELO MECANICISTA DE ENSINO
Autor: Lucas Barreto Klein
Graduando de Licenciatura em Educação Física CDS/UFSC
Membro do GECUPOM/FUTEBOL
Este resumo tem como objetivo apresentar as principais idéias de meu projeto de pesquisa, que esta sendo elaborado junto à disciplina Seminário de Conclusão de Curso I. A pedagogia da tríade ensino-aprendizagem-treinamento de futsal ainda sofre fortes influências do pensamento mecanicista originado nos séculos XVI e XVII a partir de grandes personagens, como René Descartes e outros, e uma de suas principais consequências é a chamada organização fragmentada da forma de se trabalhar o jogo. E é este modelo que está inserido dentro das categorias de base de futsal. Desta forma, buscarei como objetivo geral desta pesquisa, identificar as possibilidades do ensino do futsal em categorias de base através dum outro olhar pedagógico de organização e de movimento humano, em substituição ao tradicional ensino através da fragmentação do jogo em suas pequenas partes, buscarei ainda como objetivos secundários, caracterizar o futsal enquanto modalidade coletiva, além de refletir as causas e efeitos do modo de vida proporcionado pelo pensamento mecânico/analítico em nossa sociedade. Este estudo se caracterizará como uma pesquisa de caráter bibliográfico, cuja interpretação dos dados se dará através da análise de conteúdos escritos (livros, revistas, artigos e outros), e exploratório, pois oferecerá dados elementares que darão suporte para a realização de estudos mais aprofundados do tema.
lucasbklein@gmail.com
Área temática: Teoria e prática pedagógica em Educação Física
Graduando de Licenciatura em Educação Física CDS/UFSC
Membro do GECUPOM/FUTEBOL
Este resumo tem como objetivo apresentar as principais idéias de meu projeto de pesquisa, que esta sendo elaborado junto à disciplina Seminário de Conclusão de Curso I. A pedagogia da tríade ensino-aprendizagem-treinamento de futsal ainda sofre fortes influências do pensamento mecanicista originado nos séculos XVI e XVII a partir de grandes personagens, como René Descartes e outros, e uma de suas principais consequências é a chamada organização fragmentada da forma de se trabalhar o jogo. E é este modelo que está inserido dentro das categorias de base de futsal. Desta forma, buscarei como objetivo geral desta pesquisa, identificar as possibilidades do ensino do futsal em categorias de base através dum outro olhar pedagógico de organização e de movimento humano, em substituição ao tradicional ensino através da fragmentação do jogo em suas pequenas partes, buscarei ainda como objetivos secundários, caracterizar o futsal enquanto modalidade coletiva, além de refletir as causas e efeitos do modo de vida proporcionado pelo pensamento mecânico/analítico em nossa sociedade. Este estudo se caracterizará como uma pesquisa de caráter bibliográfico, cuja interpretação dos dados se dará através da análise de conteúdos escritos (livros, revistas, artigos e outros), e exploratório, pois oferecerá dados elementares que darão suporte para a realização de estudos mais aprofundados do tema.
lucasbklein@gmail.com
Área temática: Teoria e prática pedagógica em Educação Física
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A teoria dos jogos no aspecto da formação dos atletas
Jogadores devem vivenciar situações reais de jogo para o estímulo da inteligência tática
Anderson Gôngora
Ensinar futebol nos tempos atuais tornou-se cada vez mais complexo, pelo fato da vida social dos iniciantes desta prática esportiva estar cercada pela cibernética e seus componentes tecnológicos. A relação com a bola vivida pela geração passada é sem dúvida nenhuma maior que a atual, isso porque vivenciaram a "pedagogia da rua" por não terem tanto acesso a esses meios tão modernos para se divertirem. A aprendizagem era feita, fundamentalmente, através de pequenos jogos ou do jogo formal, por ensaio e erro, em que o jogador controlava a sua própria aprendizagem, o que originou o aparecimento de muitos jogadores dotados de uma técnica apurada para a modalidade.
Resgatar os jogos que implicam na elaboração de regras para estímulo da inteligência, é o maior desafio de clubes que desejam formar jogadores completos para o mercado atual. A teoria dos jogos consiste em trazer sempre a realidade das ações dentro de campo, ou seja, a todo o momento o jogador deve vivenciar situações reais de jogo para que então resolva os problemas de uma partida com um grande êxito.
A inteligência tática diz respeito à velocidade de raciocínio em um jogo e não somente nos aspectos fisiológicos. Deste modo, não adiantaria nada colocar um atleta de corrida dos 100 metros para atuar no futebol, só porque ele está carregado de fibras de contração rápida, e sim, treinar um menino que esteticamente seja lento, mas que na verdade é rápido na análise e na leitura do jogo, logo o torna veloz nas situações de maior dificuldade.
Muitos treinadores das categorias de base, não se preocupam com os jogos para a compreensão. Sendo assim, o método de ensino baseado na técnica é aquele que ainda impera na maioria dos clubes. Se observarmos os treinos na atualidade, eles não diferem muito daqueles que se fazia a dez ou vinte anos atrás, isto porque é mais fácil dar ênfase em um treinamento fragmentado, mas que atinja os objetivos técnicos, do que estimular regras contextualizadas no jogo propriamente dito. Portanto, fazer com que os garotos raciocinem e formulem hipóteses sobre o conhecimento tático do jogo é a melhor maneira de se formar um jogador.
Contudo, para os clubes não perderem valores como Kaká, Deco entre outros, devem dar mais espaço à jogadores inteligentes e rápidos de raciocínio no jogo, que irão se destacar à longo prazo, a se preocuparem em ganhar uma competição momentânea utilizando-se de atletas fortes que somente tem o corpo como vantagem imediata.
Referências Bibliográficas
Garganta, J. A análise da performance nos jogos desportivos: Revisão acerca da análise do jogo, 2001;
Scaglia, A. J.Proposta pedagógica no futebol, 2003;
Lourenço, L. O Case Study José Mourinho: Uma investigação sobre o fenômeno da liderança e a operacionalização da perspectiva paradigmática da complexidade, 2006.
Anderson Gôngora
Ensinar futebol nos tempos atuais tornou-se cada vez mais complexo, pelo fato da vida social dos iniciantes desta prática esportiva estar cercada pela cibernética e seus componentes tecnológicos. A relação com a bola vivida pela geração passada é sem dúvida nenhuma maior que a atual, isso porque vivenciaram a "pedagogia da rua" por não terem tanto acesso a esses meios tão modernos para se divertirem. A aprendizagem era feita, fundamentalmente, através de pequenos jogos ou do jogo formal, por ensaio e erro, em que o jogador controlava a sua própria aprendizagem, o que originou o aparecimento de muitos jogadores dotados de uma técnica apurada para a modalidade.
Resgatar os jogos que implicam na elaboração de regras para estímulo da inteligência, é o maior desafio de clubes que desejam formar jogadores completos para o mercado atual. A teoria dos jogos consiste em trazer sempre a realidade das ações dentro de campo, ou seja, a todo o momento o jogador deve vivenciar situações reais de jogo para que então resolva os problemas de uma partida com um grande êxito.
A inteligência tática diz respeito à velocidade de raciocínio em um jogo e não somente nos aspectos fisiológicos. Deste modo, não adiantaria nada colocar um atleta de corrida dos 100 metros para atuar no futebol, só porque ele está carregado de fibras de contração rápida, e sim, treinar um menino que esteticamente seja lento, mas que na verdade é rápido na análise e na leitura do jogo, logo o torna veloz nas situações de maior dificuldade.
Muitos treinadores das categorias de base, não se preocupam com os jogos para a compreensão. Sendo assim, o método de ensino baseado na técnica é aquele que ainda impera na maioria dos clubes. Se observarmos os treinos na atualidade, eles não diferem muito daqueles que se fazia a dez ou vinte anos atrás, isto porque é mais fácil dar ênfase em um treinamento fragmentado, mas que atinja os objetivos técnicos, do que estimular regras contextualizadas no jogo propriamente dito. Portanto, fazer com que os garotos raciocinem e formulem hipóteses sobre o conhecimento tático do jogo é a melhor maneira de se formar um jogador.
Contudo, para os clubes não perderem valores como Kaká, Deco entre outros, devem dar mais espaço à jogadores inteligentes e rápidos de raciocínio no jogo, que irão se destacar à longo prazo, a se preocuparem em ganhar uma competição momentânea utilizando-se de atletas fortes que somente tem o corpo como vantagem imediata.
Referências Bibliográficas
Garganta, J. A análise da performance nos jogos desportivos: Revisão acerca da análise do jogo, 2001;
Scaglia, A. J.Proposta pedagógica no futebol, 2003;
Lourenço, L. O Case Study José Mourinho: Uma investigação sobre o fenômeno da liderança e a operacionalização da perspectiva paradigmática da complexidade, 2006.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
O futsal é um todo integrado
Wilton Carlos de Santana
Mestre em Pedagogia do Movimento pela UNICAMP (SP)
Doutorando em Educação Física na Unicamp (SP)
Quando dou as minhas aulas na graduação, costumo apontar as diferenças conceituais e metodológicas de dois processos de ensino distintos: o centrado na técnica e o centrado na inteligência tática. Claude Bayer (1994), num livro clássico chamado “O ensino dos desportos colectivos”, chamou isso de concepções pedagógicas antagônicas (método tradicional e método ativo). Acerca dos detalhes de cada processo, em síntese, enquanto o segundo se apóia na crença de que a criança aprende a jogar jogando, investindo na iniciativa, o primeiro investe na idéia de que a criança deve aprender a praticar as habilidades para depois jogar, investindo na repetição. Estabelecida essa diferença conceitual, facilita deduzir que, metodologicamente, o professor que se afinar com a primeira idéia irá propor exercícios e o que se associar à segunda administrará jogos.
Até aí tudo bem. Nada de novo. Os estudantes compreendem as diferenças. Porém, quando se trata de ensinar, boa parte rechaça a opção de se investir na inteligência tática, o novo sempre assusta. Alguns resistem ao ponto de não aprender o que lhes apresento. O conteúdo novo não “cabe” no universo que têm. Eu compreendo a resistência. São anos de tecnicismo. O argumento mais freqüente que ouço é o seguinte: como a criança poderá jogar bem sem aprender, isoladamente, as habilidades de dominar, conduzir, driblar, passar, chutar? Nem mesmo as evidências de que gerações de crianças brasileiras aprenderam (e continuam aprendendo) futebol sem respeitar essa lógica e os argumentos de que Leônidas, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Pelé, Tostão, Rivelino, Zico e Romário, craques maravilhosos, também assim o aprenderam dão conta de derrubar aquela “tese”. Por extensão, para parte dos meus alunos, quando do ensino do futebol para crianças, ficar-se-ia inviável aprender a jogar jogando (mediante jogos e brincadeiras).
Isso posto, faço algumas ponderações. A idéia de que as crianças não aprendem a jogar jogando não se sustentaria nem se estas se matriculassem nas escolinhas “em branco”, o que, convenhamos, não acontece. Ora, ao se considerar que as crianças precisam aprender os gestos técnicos para depois jogar, como pensam alguns dos meus alunos, admite-se que aquelas nada sabem sobre isso. E ainda pior: resume-se o futebol, que é um jogo, a gestos! Trata-se, portanto, de um equívoco, pois em geral as crianças ao se iniciarem no futsal, em função das vossas histórias de vida e de a popularidade desse esporte, acumulam certa experiência em jogá-lo. Significa dizer que sabem dominar, conduzir, passar, driblar, finalizar e defender, mas, evidentemente, na maioria dos casos, de forma rudimentar. Porém suficiente para que possam aprender a jogar jogando e assim atualizem o que sabem.
Então é o seguinte: se a criança, ainda que de forma incipiente, consegue parar, conduzir, chutar, passar e recuperar a bola, ensinar futsal mediante jogos e brincadeiras é possível. De outro lado, se a criança não reunir um repertório de movimentos para dar conta disso, então é preciso construí-lo. A dica é analisar o que elas conseguem fazer e planejar um jogo, uma brincadeira, enfim, algo compatível. A atitude de planejar atividades para que as crianças aprendam as habilidades de forma integrada, no próprio jogo, sob formas menos complexas, tem a vantagem de associar, desde cedo, o gesto à intenção e a intenção ao gesto. O futsal é um todo integrado. Qualquer tentativa de reduzi-lo a um conjunto de técnicas é equivocada.
Mestre em Pedagogia do Movimento pela UNICAMP (SP)
Doutorando em Educação Física na Unicamp (SP)
Quando dou as minhas aulas na graduação, costumo apontar as diferenças conceituais e metodológicas de dois processos de ensino distintos: o centrado na técnica e o centrado na inteligência tática. Claude Bayer (1994), num livro clássico chamado “O ensino dos desportos colectivos”, chamou isso de concepções pedagógicas antagônicas (método tradicional e método ativo). Acerca dos detalhes de cada processo, em síntese, enquanto o segundo se apóia na crença de que a criança aprende a jogar jogando, investindo na iniciativa, o primeiro investe na idéia de que a criança deve aprender a praticar as habilidades para depois jogar, investindo na repetição. Estabelecida essa diferença conceitual, facilita deduzir que, metodologicamente, o professor que se afinar com a primeira idéia irá propor exercícios e o que se associar à segunda administrará jogos.
Até aí tudo bem. Nada de novo. Os estudantes compreendem as diferenças. Porém, quando se trata de ensinar, boa parte rechaça a opção de se investir na inteligência tática, o novo sempre assusta. Alguns resistem ao ponto de não aprender o que lhes apresento. O conteúdo novo não “cabe” no universo que têm. Eu compreendo a resistência. São anos de tecnicismo. O argumento mais freqüente que ouço é o seguinte: como a criança poderá jogar bem sem aprender, isoladamente, as habilidades de dominar, conduzir, driblar, passar, chutar? Nem mesmo as evidências de que gerações de crianças brasileiras aprenderam (e continuam aprendendo) futebol sem respeitar essa lógica e os argumentos de que Leônidas, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Pelé, Tostão, Rivelino, Zico e Romário, craques maravilhosos, também assim o aprenderam dão conta de derrubar aquela “tese”. Por extensão, para parte dos meus alunos, quando do ensino do futebol para crianças, ficar-se-ia inviável aprender a jogar jogando (mediante jogos e brincadeiras).
Isso posto, faço algumas ponderações. A idéia de que as crianças não aprendem a jogar jogando não se sustentaria nem se estas se matriculassem nas escolinhas “em branco”, o que, convenhamos, não acontece. Ora, ao se considerar que as crianças precisam aprender os gestos técnicos para depois jogar, como pensam alguns dos meus alunos, admite-se que aquelas nada sabem sobre isso. E ainda pior: resume-se o futebol, que é um jogo, a gestos! Trata-se, portanto, de um equívoco, pois em geral as crianças ao se iniciarem no futsal, em função das vossas histórias de vida e de a popularidade desse esporte, acumulam certa experiência em jogá-lo. Significa dizer que sabem dominar, conduzir, passar, driblar, finalizar e defender, mas, evidentemente, na maioria dos casos, de forma rudimentar. Porém suficiente para que possam aprender a jogar jogando e assim atualizem o que sabem.
Então é o seguinte: se a criança, ainda que de forma incipiente, consegue parar, conduzir, chutar, passar e recuperar a bola, ensinar futsal mediante jogos e brincadeiras é possível. De outro lado, se a criança não reunir um repertório de movimentos para dar conta disso, então é preciso construí-lo. A dica é analisar o que elas conseguem fazer e planejar um jogo, uma brincadeira, enfim, algo compatível. A atitude de planejar atividades para que as crianças aprendam as habilidades de forma integrada, no próprio jogo, sob formas menos complexas, tem a vantagem de associar, desde cedo, o gesto à intenção e a intenção ao gesto. O futsal é um todo integrado. Qualquer tentativa de reduzi-lo a um conjunto de técnicas é equivocada.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Treino é jogo, jogo é treino
Se treino for atividade isolada e fora do contexto, jogadores não estarão preparados para resolver problemas durante as partidas.
Alcides Scaglia
Treino é treino, jogo é jogo. Esse é um dos ditados mais conhecidos no futebol. Jornalistas, técnicos, jogadores, torcedores... Já escutei essa frase de todos eles. Contudo, o problema não se resume em reproduzir o ditado, mas em acreditar nele.
Essa máxima popular, se levada ao pé da letra, me permite concluir que não tem sentido treinar. Se o treino serve apenas para treinar, sem qualquer relação com o jogo, passa a ser apenas ocupação de tempo livre antes do jogo, pois o mesmo não prepara os jogadores para enfrentar os problemas do jogo.
No futebol, os treinos e seus objetivos são, na maioria das vezes, banalizados (repetidos porque sempre foi assim). Pode-se dizer isso no sentido de que os mesmos não se preocupam necessariamente em manter uma relação com o acaso e as exigências presentes no jogo. Por exemplo: nos treinos reina a previsibilidade; no jogo impera a imprevisibilidade.
Explico: desde a rotina da semana, passando pelo aquecimento, treinos físicos, treinos técnicos, treinos táticos, até a nutrição antes do jogo, são previsíveis, no sentido de sempre se repetirem, enquanto que o jogo é marcado por situações inesperadas e inevitáveis. Logo, nunca uma mesma jogada se repete, uma mesma ação é reproduzida, ou mesmo, um gol igual ao outro é convertido.
Na imensa maioria dos clubes, a preparação física acontece separadamente das demais preparações (técnica, tática e emocional), longe do campo de jogo, sem bola, e ainda mais, por incrível que possa parecer, com a imposição autoritária do técnico impedindo o preparador físico de literalmente colocar as mãos na bola.
Já no jogo os atletas usam o físico, a técnica, a tática e o emocional de forma integrada.
Não há possibilidade de no jogo de futebol separá-los em partes, reduzi-los a momentos em que as valências físicas possam ser isoladas dos demais componentes do jogo, sem ser influenciada pelos mesmos.
Os treinos técnicos são analíticos, repetem-se movimentos de forma descontextualizada do jogo. Quando se treina a reprodução de movimentos fechados, padrões gestuais são preestabelecidos. Adestra-se uma habilidade fechada. Desse modo, formam-se exímios malabaristas com a bola nos pés (preparados para o circo) e inaptos jogadores (jogadores não inteligentes).
No jogo são exigidas habilidades abertas, pois as exigências de execução são sempre variadas e requerem constantes adaptações, ajustes inesperados. Logo, se os jogadores nos treinos não são estimulados a potencializar suas respectivas capacidades adaptativas (sua inteligência para o jogo), eles se apresentam como inadequados, ou até contraproducentes na perspectiva de altos rendimentos (ficam limitados).
Outro exemplo são os treinos táticos, pois, na maioria deles, os marcadores fazem sombra aos atacantes titulares, ou seja, apenas acompanham a jogada. Fala-se aos quatro cantos do mundo da bola que estes treinos táticos, ensaiados e coreografados já foram alvo de crítica de um dos paradoxais gênios do nosso futebol brasileiro. Diz-se que Garrincha certa vez, depois de participar de um desses treinos, perguntou ao técnico se já haviam combinado também com o time adversário, pois só assim a jogada daria certo.
Garrincha foi e é motivo de piadas e chacotas no meio futebolístico em relação a sua hipotética limitação intelectual. Será que ele estava errado ao fazer essa colocação?
O jogo sempre tende ao caos, à desordem. Até os treinos coletivos, que se caracterizam como jogo, muito raramente acontecem levando em conta fatos que são corriqueiros, como, por exemplo, a desigualdade numérica. Uma equipe dirigida por um treinador tecnicista nunca treina como jogar com um ou dois jogadores a mais ou a menos, porém se depara inevitavelmente com essa situação quase que em todos os jogos.
Portanto, adentrar ao século XXI é entender que uma inovadora metodologia de treinamento no futebol deve modificar a máxima popular de que treino é treino, jogo é jogo, e essa passaria a ser: “Treino é jogo, jogo é treino”.
Alcides Scaglia
Treino é treino, jogo é jogo. Esse é um dos ditados mais conhecidos no futebol. Jornalistas, técnicos, jogadores, torcedores... Já escutei essa frase de todos eles. Contudo, o problema não se resume em reproduzir o ditado, mas em acreditar nele.
Essa máxima popular, se levada ao pé da letra, me permite concluir que não tem sentido treinar. Se o treino serve apenas para treinar, sem qualquer relação com o jogo, passa a ser apenas ocupação de tempo livre antes do jogo, pois o mesmo não prepara os jogadores para enfrentar os problemas do jogo.
No futebol, os treinos e seus objetivos são, na maioria das vezes, banalizados (repetidos porque sempre foi assim). Pode-se dizer isso no sentido de que os mesmos não se preocupam necessariamente em manter uma relação com o acaso e as exigências presentes no jogo. Por exemplo: nos treinos reina a previsibilidade; no jogo impera a imprevisibilidade.
Explico: desde a rotina da semana, passando pelo aquecimento, treinos físicos, treinos técnicos, treinos táticos, até a nutrição antes do jogo, são previsíveis, no sentido de sempre se repetirem, enquanto que o jogo é marcado por situações inesperadas e inevitáveis. Logo, nunca uma mesma jogada se repete, uma mesma ação é reproduzida, ou mesmo, um gol igual ao outro é convertido.
Na imensa maioria dos clubes, a preparação física acontece separadamente das demais preparações (técnica, tática e emocional), longe do campo de jogo, sem bola, e ainda mais, por incrível que possa parecer, com a imposição autoritária do técnico impedindo o preparador físico de literalmente colocar as mãos na bola.
Já no jogo os atletas usam o físico, a técnica, a tática e o emocional de forma integrada.
Não há possibilidade de no jogo de futebol separá-los em partes, reduzi-los a momentos em que as valências físicas possam ser isoladas dos demais componentes do jogo, sem ser influenciada pelos mesmos.
Os treinos técnicos são analíticos, repetem-se movimentos de forma descontextualizada do jogo. Quando se treina a reprodução de movimentos fechados, padrões gestuais são preestabelecidos. Adestra-se uma habilidade fechada. Desse modo, formam-se exímios malabaristas com a bola nos pés (preparados para o circo) e inaptos jogadores (jogadores não inteligentes).
No jogo são exigidas habilidades abertas, pois as exigências de execução são sempre variadas e requerem constantes adaptações, ajustes inesperados. Logo, se os jogadores nos treinos não são estimulados a potencializar suas respectivas capacidades adaptativas (sua inteligência para o jogo), eles se apresentam como inadequados, ou até contraproducentes na perspectiva de altos rendimentos (ficam limitados).
Outro exemplo são os treinos táticos, pois, na maioria deles, os marcadores fazem sombra aos atacantes titulares, ou seja, apenas acompanham a jogada. Fala-se aos quatro cantos do mundo da bola que estes treinos táticos, ensaiados e coreografados já foram alvo de crítica de um dos paradoxais gênios do nosso futebol brasileiro. Diz-se que Garrincha certa vez, depois de participar de um desses treinos, perguntou ao técnico se já haviam combinado também com o time adversário, pois só assim a jogada daria certo.
Garrincha foi e é motivo de piadas e chacotas no meio futebolístico em relação a sua hipotética limitação intelectual. Será que ele estava errado ao fazer essa colocação?
O jogo sempre tende ao caos, à desordem. Até os treinos coletivos, que se caracterizam como jogo, muito raramente acontecem levando em conta fatos que são corriqueiros, como, por exemplo, a desigualdade numérica. Uma equipe dirigida por um treinador tecnicista nunca treina como jogar com um ou dois jogadores a mais ou a menos, porém se depara inevitavelmente com essa situação quase que em todos os jogos.
Portanto, adentrar ao século XXI é entender que uma inovadora metodologia de treinamento no futebol deve modificar a máxima popular de que treino é treino, jogo é jogo, e essa passaria a ser: “Treino é jogo, jogo é treino”.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Ácido lático, lactato e os trotes pós-jogo: a saga continua... Continua?!
Polêmica e mitos criados no futebol devido ao acesso cada vez mais fácil às informações
Rodrigo Leitão, Fernando Catanho
É com enorme prazer que, através deste texto, sejamos porta-vozes, dentre alguns do meio acadêmico-científico, a falar sobre a trama que se desenvolve unindo essas duas inofensivas palavras: ácido lático e lactato.
Inofensivas? Talvez seja certa petulância denominá-las assim, tendo em vista o poder de confusão e furor causado por essas palavras na prática esportiva há anos. Vamos aos fatos.
Na década de 30 já se pesquisava o poder energético do músculo-esquelético dos seres humanos. Desde então, já era sabido que existia, nesse mesmo tecido, uma tal via glicolítica, que acabou se tornando muito famosa não só pelo fato de se constituir em uma usina de força para exercícios intensos, mas também porque dessa famigerada via "nascia" um produto praticamente letal para nosso organismo: o ácido lático!
Espere um minuto! Pare e reflita! Será que nosso organismo (especialmente o músculo-esquelético) seria capaz de, ao buscar cumprir com um desafio metabólico, procurando funcionar cada milésimo de segundo mais e mais, produziria, ele mesmo, um "sujeito" que causaria fadiga, cansaço, dor, incômodo, incapacidade, gerando uma inibição do seu próprio funcionamento? Não soaria um tanto ilógico, caro leitor?
Obviamente não estamos aqui para discutir sobre os desígnios de Deus sobre uma de suas mais belas criações: o ser humano. Mas, segundo uma visão evolucionista, se algo foi criado por Ele para funcionar, deve haver uma (ou mais) forma(s) de funcionar. Logo, se o músculo-esquelético precisa muito estar "focado" na produção de movimento, graças ao magnífico estoque de glicogênio, por que produzir algo que lhe atrapalhe?
Caminhando para um olhar bioquímico, podemos nos consolar de certa forma. Por que? Bem, segundo a própria química, seria fisiologicamente improvável a existência de ácido lático em nosso organismo. Novamente, por que? Bem, imagine a seguinte situação: colocar um torcedor palmeirense "no meio" da torcida do Corinthians. A pergunta: existiriam condições favoráveis à sobrevivência desse pobre torcedor? Enfim, ao que parece, não existem condições fisiológicas favoráveis em nossas células, inclusive no músculo-esquelético, para a existência (e sobrevivência) do ácido lático. Logo, quem existiria? Bem, seu "algoz", o lactato.
Um pouco mais além, utilizando-se dos achados de um brilhante autor chamado Robert Robergs, firma-se mais um capítulo no intento de desvendar os mistérios dessa novela. Segundo esse autor, quando o lactato (e não o ácido lático) é formado no músculo-esquelético, não há nenhum prejuízo para estas células. Ou seja, ao produzir lactato, não há, por causa deste, fadiga, cansaço, dor, incômodo e incapacidade. Pelo contrário, o lactato, por mais de uma razão, seria considerado como uma "salvação" para a célula, pois evitaria que um certo caos se instalasse nela. E mais, esse simples composto formado por três carbonos, inofensivo por natureza, ainda pode servir como energia para demais células do organismo, como o fígado e o coração.
Bem, confesso que esta é uma discussão ainda muito acirrada na literatura. Porém, muitas evidências surgiram e têm surgido inocentando o lactato, eximindo-o de grande parte da culpa que, outrora, fora atribuída ao ácido lático.
Nesse sentido, se nosso organismo não produz o tal ácido (que, na maioria das vezes, nos traz a imagem de algo ruim, destruidor, corrosivo) e, se o "mocinho" lactato é tão útil e versátil, fica uma indagação: será que a direção do treinamento físico que estamos seguindo é aquela que gostaríamos e pretenderíamos seguir quando considerando os "atores" dessa histórica, por vezes emocionante, novela?
Senhores e senhoras, por essas e por outras histórias relacionadas às condutas práticas quanto ao ácido lático e lactato, o alarme fisiológico deve ser dado, em alto e bom tom, pois o incômodo leva a tomada de providências. Gritar, berrar, saltar, discutir, espernear, resmungar, indagar, discursar, profetizar, dialogar. Sejamos parte integrante e ativa dessa novela!
Como exemplo e contextualizando, vamos analisar mais um capítulo dessa história logo a seguir. Peço a vossa preciosa atenção.
Espantoso como em um mundo globalizado (termo que até já parece meio "batido"), de acesso rápido a informação, ainda ocorrem no futebol profissional situações ultrapassadas, arcaicas que por imitação (um que vê o outro, faz igual e leva um outro a fazer também) se tornam mito; e o mito se torna MITO que se torna verdade; sem ser nem de longe, muito longe a tal "verdade".
Uma prática comum de longa data no futebol é uma corrida leve (um trote) de 10 a 30 minutos logo após atividades competitivas. Em outras palavras, acaba a partida e o "preparador físico" logo vai organizando uma corridinha leve para "auxiliar", "acelerar" a recuperação do atleta.
Justificativas? As mais variadas possíveis; mas todas elas norteadas pelo "ácido lático" (ácido lático?). Segundo os argumentos, o trote aceleraria a remoção de "ácido lático" do músculo e do sangue (já que seu acúmulo seria prejudicial e ele poderia deixar resíduos até o dia seguinte).
Trotar depois do jogo virou moda. Para os atletas a sensação de estarem se esforçando mais para defender a camisa de sua equipe. Para a torcida, a prova de que os atletas estão envolvidos com a preparação do time. Para o preparador físico, "o pulo do gato"; trabalho bem cumprido. E por virar moda (inevitável) a estratégia fora copiada por equipes de base (pobres atletas "adultos em miniatura").
No final da década de 90, a tal prática foi "desmascarada" por cientistas, através de pesquisas que mostraram que o tal trote era um desperdício de tempo; um desgaste a mais, injustificável para atletas já cansados de 90 minutos de jogo intenso. O "ácido lático" que já sabemos nem é ácido lático, não levava, como argumentado, um dia para "desaparecer" do músculo ou do sangue; em repouso isso era questão de minutos (no máximo, na pior das hipóteses, em atletas mal condicionados, 120´). E o pior? Ele nem era o vilão da história...
Bom, passaram-se os anos e a moda que virou mito e então verdade, mesmo desmascarada, ainda é praticada pelos mais desatentos e desinformados treinadores e preparadores físicos. O problema é que hoje o desaforo atinge com mais força as categorias de base e vez ou outra ainda aparece na categoria principal.
E como se não bastasse a repetição do equívoco no futebol masculino, ele acabou aparecendo no futebol feminino e vem contaminando cada vez mais equipes (como se não bastasse a carência de investimentos e estrutura, ainda faltam pessoas capacitadas que "pensam" - pobre futebol feminino).
Senhores, estão aí a Fisiologia do Exercício, a Bioquímica do Exercício, a Nutrição do Exercício, as Teorias do Treinamento Desportivo e diversas outras áreas que compõem a "Multi-Transdisciplinaridade" das Ciências do Desporto, cheias de informação e conhecimento, "sedentas" para participarem da prática.
Então, o que precisamos fazer? Corramos em alta velocidade atrás do conhecimento, porque com esse "trotezinho" pós-jogo, ele (o conhecimento científico) está ficando lá na frente, muito longe.
Ao final, o devaneio
O sujeito acaba de fazer amor com a esposa olha para o lado com um ar de "mandei bem"; e pensa: "vai ficar uma semana sem querer sexo (e ao mesmo tempo o eco da experiência soa em sua mente: "ufa, tomara mesmo, ando meio cansado, é bom ter uma folga")".
É, mas como às vezes nem toda experiência basta, a esposa se vira para o lado, olha bem no olho do marido e diz:
- Amor, foi muito bom... amanhã, amanhã eu quero mais... muito mais!!!
Já com todo cansaço acumulado do trabalho sentido no corpo (agravado pelos 90 minutos de sexo) - e sem o vigor de antigamente - sem pestanejar, o sujeito se levanta, calça o par de tênis e adivinhem; sai para um "trotezinho" ("se dá certo pros atletas, vai dar certo pra mim também...")
Se a moda pega...
* Professor Fernando Catanho (Labex-Unicamp) e professor Rodrigo Leitão (FEF-Unicamp)
Polêmica e mitos criados no futebol devido ao acesso cada vez mais fácil às informações
Rodrigo Leitão, Fernando Catanho
É com enorme prazer que, através deste texto, sejamos porta-vozes, dentre alguns do meio acadêmico-científico, a falar sobre a trama que se desenvolve unindo essas duas inofensivas palavras: ácido lático e lactato.
Inofensivas? Talvez seja certa petulância denominá-las assim, tendo em vista o poder de confusão e furor causado por essas palavras na prática esportiva há anos. Vamos aos fatos.
Na década de 30 já se pesquisava o poder energético do músculo-esquelético dos seres humanos. Desde então, já era sabido que existia, nesse mesmo tecido, uma tal via glicolítica, que acabou se tornando muito famosa não só pelo fato de se constituir em uma usina de força para exercícios intensos, mas também porque dessa famigerada via "nascia" um produto praticamente letal para nosso organismo: o ácido lático!
Espere um minuto! Pare e reflita! Será que nosso organismo (especialmente o músculo-esquelético) seria capaz de, ao buscar cumprir com um desafio metabólico, procurando funcionar cada milésimo de segundo mais e mais, produziria, ele mesmo, um "sujeito" que causaria fadiga, cansaço, dor, incômodo, incapacidade, gerando uma inibição do seu próprio funcionamento? Não soaria um tanto ilógico, caro leitor?
Obviamente não estamos aqui para discutir sobre os desígnios de Deus sobre uma de suas mais belas criações: o ser humano. Mas, segundo uma visão evolucionista, se algo foi criado por Ele para funcionar, deve haver uma (ou mais) forma(s) de funcionar. Logo, se o músculo-esquelético precisa muito estar "focado" na produção de movimento, graças ao magnífico estoque de glicogênio, por que produzir algo que lhe atrapalhe?
Caminhando para um olhar bioquímico, podemos nos consolar de certa forma. Por que? Bem, segundo a própria química, seria fisiologicamente improvável a existência de ácido lático em nosso organismo. Novamente, por que? Bem, imagine a seguinte situação: colocar um torcedor palmeirense "no meio" da torcida do Corinthians. A pergunta: existiriam condições favoráveis à sobrevivência desse pobre torcedor? Enfim, ao que parece, não existem condições fisiológicas favoráveis em nossas células, inclusive no músculo-esquelético, para a existência (e sobrevivência) do ácido lático. Logo, quem existiria? Bem, seu "algoz", o lactato.
Um pouco mais além, utilizando-se dos achados de um brilhante autor chamado Robert Robergs, firma-se mais um capítulo no intento de desvendar os mistérios dessa novela. Segundo esse autor, quando o lactato (e não o ácido lático) é formado no músculo-esquelético, não há nenhum prejuízo para estas células. Ou seja, ao produzir lactato, não há, por causa deste, fadiga, cansaço, dor, incômodo e incapacidade. Pelo contrário, o lactato, por mais de uma razão, seria considerado como uma "salvação" para a célula, pois evitaria que um certo caos se instalasse nela. E mais, esse simples composto formado por três carbonos, inofensivo por natureza, ainda pode servir como energia para demais células do organismo, como o fígado e o coração.
Bem, confesso que esta é uma discussão ainda muito acirrada na literatura. Porém, muitas evidências surgiram e têm surgido inocentando o lactato, eximindo-o de grande parte da culpa que, outrora, fora atribuída ao ácido lático.
Nesse sentido, se nosso organismo não produz o tal ácido (que, na maioria das vezes, nos traz a imagem de algo ruim, destruidor, corrosivo) e, se o "mocinho" lactato é tão útil e versátil, fica uma indagação: será que a direção do treinamento físico que estamos seguindo é aquela que gostaríamos e pretenderíamos seguir quando considerando os "atores" dessa histórica, por vezes emocionante, novela?
Senhores e senhoras, por essas e por outras histórias relacionadas às condutas práticas quanto ao ácido lático e lactato, o alarme fisiológico deve ser dado, em alto e bom tom, pois o incômodo leva a tomada de providências. Gritar, berrar, saltar, discutir, espernear, resmungar, indagar, discursar, profetizar, dialogar. Sejamos parte integrante e ativa dessa novela!
Como exemplo e contextualizando, vamos analisar mais um capítulo dessa história logo a seguir. Peço a vossa preciosa atenção.
Espantoso como em um mundo globalizado (termo que até já parece meio "batido"), de acesso rápido a informação, ainda ocorrem no futebol profissional situações ultrapassadas, arcaicas que por imitação (um que vê o outro, faz igual e leva um outro a fazer também) se tornam mito; e o mito se torna MITO que se torna verdade; sem ser nem de longe, muito longe a tal "verdade".
Uma prática comum de longa data no futebol é uma corrida leve (um trote) de 10 a 30 minutos logo após atividades competitivas. Em outras palavras, acaba a partida e o "preparador físico" logo vai organizando uma corridinha leve para "auxiliar", "acelerar" a recuperação do atleta.
Justificativas? As mais variadas possíveis; mas todas elas norteadas pelo "ácido lático" (ácido lático?). Segundo os argumentos, o trote aceleraria a remoção de "ácido lático" do músculo e do sangue (já que seu acúmulo seria prejudicial e ele poderia deixar resíduos até o dia seguinte).
Trotar depois do jogo virou moda. Para os atletas a sensação de estarem se esforçando mais para defender a camisa de sua equipe. Para a torcida, a prova de que os atletas estão envolvidos com a preparação do time. Para o preparador físico, "o pulo do gato"; trabalho bem cumprido. E por virar moda (inevitável) a estratégia fora copiada por equipes de base (pobres atletas "adultos em miniatura").
No final da década de 90, a tal prática foi "desmascarada" por cientistas, através de pesquisas que mostraram que o tal trote era um desperdício de tempo; um desgaste a mais, injustificável para atletas já cansados de 90 minutos de jogo intenso. O "ácido lático" que já sabemos nem é ácido lático, não levava, como argumentado, um dia para "desaparecer" do músculo ou do sangue; em repouso isso era questão de minutos (no máximo, na pior das hipóteses, em atletas mal condicionados, 120´). E o pior? Ele nem era o vilão da história...
Bom, passaram-se os anos e a moda que virou mito e então verdade, mesmo desmascarada, ainda é praticada pelos mais desatentos e desinformados treinadores e preparadores físicos. O problema é que hoje o desaforo atinge com mais força as categorias de base e vez ou outra ainda aparece na categoria principal.
E como se não bastasse a repetição do equívoco no futebol masculino, ele acabou aparecendo no futebol feminino e vem contaminando cada vez mais equipes (como se não bastasse a carência de investimentos e estrutura, ainda faltam pessoas capacitadas que "pensam" - pobre futebol feminino).
Senhores, estão aí a Fisiologia do Exercício, a Bioquímica do Exercício, a Nutrição do Exercício, as Teorias do Treinamento Desportivo e diversas outras áreas que compõem a "Multi-Transdisciplinaridade" das Ciências do Desporto, cheias de informação e conhecimento, "sedentas" para participarem da prática.
Então, o que precisamos fazer? Corramos em alta velocidade atrás do conhecimento, porque com esse "trotezinho" pós-jogo, ele (o conhecimento científico) está ficando lá na frente, muito longe.
Ao final, o devaneio
O sujeito acaba de fazer amor com a esposa olha para o lado com um ar de "mandei bem"; e pensa: "vai ficar uma semana sem querer sexo (e ao mesmo tempo o eco da experiência soa em sua mente: "ufa, tomara mesmo, ando meio cansado, é bom ter uma folga")".
É, mas como às vezes nem toda experiência basta, a esposa se vira para o lado, olha bem no olho do marido e diz:
- Amor, foi muito bom... amanhã, amanhã eu quero mais... muito mais!!!
Já com todo cansaço acumulado do trabalho sentido no corpo (agravado pelos 90 minutos de sexo) - e sem o vigor de antigamente - sem pestanejar, o sujeito se levanta, calça o par de tênis e adivinhem; sai para um "trotezinho" ("se dá certo pros atletas, vai dar certo pra mim também...")
Se a moda pega...
* Professor Fernando Catanho (Labex-Unicamp) e professor Rodrigo Leitão (FEF-Unicamp)
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